Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial

 

Metodologia de Cálculo do Valor da Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial

Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo – Escola de Administração de Empresas de São Paulo – FGV 

 

A presente metodologia desenvolvida pelo CND-FGV tem como objetivo estimar o valor da Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial, isto é, aquela que garantiria aos empresários produtores de manufaturados no “estado da arte” uma rentabilidade razoável para competirem no mercado externo e interno (Marconi, 2012). O principal insumo para este cálculo é uma série histórica do Índice da Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial (ICEI),  que representa uma taxa de câmbio real efetiva calculada a partir dos custos unitários do trabalho dos principais parceiros comerciais brasileiros no que diz respeito ao comércio de produtos manufaturados. É importante notar que, de maneira a tornar a ponderação destes parceiros comerciais dinâmica e não fixa no tempo e, ao mesmo tempo, não criar um problema de endogeneidade na amostra, a ponderação é mantida durante um período de 5 anos, sendo então recalculada. Assim, é possível controlar o problema da endogeneidade permitindo que o peso de cada parceiro comercial evolua ao longo do tempo.

O ICEI é um índice de competitividade por definição, uma vez que é calculado a partir dos custos unitários do trabalho. O custo unitário do trabalho de um país é uma medida de produtividade real, calculada como a razão entre o salário médio e a produtividade (ou entre a massa salarial e o valor adicionado, quando as primeiras informações não estiverem disponíveis). Dessa maneira, uma vez que os salários representam uma parcela significativa dos custos industriais, para que as margens de lucro se mantenham estáveis no mundo é preciso que a evolução da taxa de câmbio acompanhe a evolução dos custos unitários do trabalho relativos. Sendo assim, o ICEI é calculado como o custo unitário do trabalho no Brasil dividido pelo custo unitário do trabalho (médio ponderado) de seus parceiros comerciais.

Por se tratar de um índice, deve-se definir qual é a sua base. Melhor dizendo, para que calculemos o valor da taxa de câmbio de equilíbrio industrial para o Brasil (onde existe a doença holandesa), é necessário se estabelecer um ano-base para o índice calculado, no qual se estima que o equilíbrio industrial estivesse razoavelmente garantido. Dado que o equilíbrio industrial é, por definição, mais depreciado que o equilíbrio corrente, o país com doença holandesa deverá ter um superávit em conta corrente nesse ano base (Bresser-Pereira, 2018). Dado, por outro lado, que na economia brasileira a doença holandesa é moderada, esse superávit deve ser pequeno.

Dessa forma, foi escolhido como base o ano de 2005, no qual a taxa de câmbio girou em torno do equilíbrio industrial, uma vez que o saldo em conta corrente foi ligeiramente positivo nesse período, bem como nos dois anos anteriores e posteriores.

Uma vez tendo calculado o ICEI e definido o ano base para o estudo, o cálculo do valor da taxa de câmbio nominal bilateral (R$/US$) que possibilitaria fazer com que a taxa real de câmbio estimada fosse equivalente ao ICEI, é o seguinte:

 

 

O resultado deste cálculo é também um índice (pois as diversas taxas bilaterais envolvidas em seu cálculo devem ser previamente definidas em índice), que deve ser transformado em relativo (isso é, dividido por 100) e multiplicado pela taxa de câmbio nominal bilateral (R$/US$) média do ano base (2005), chegando assim à taxa de câmbio nominal bilateral (R$/US$) que deveria prevalecer no correspondente período para o qual o ICEI foi estimado, de modo a possibilitar a igualdade entre a taxa real de câmbio e este ICEI no momento analisado.

 

A seguir, vamos detalhar as etapas do cálculo acima:

 

  1. Fórmula de cálculo do índice da Taxa de Câmbio Nominal real/dólar necessária para que se atinja uma determinada Taxa de Câmbio Real Efetiva

 

Essa fórmula pode ser utilizada tanto para calcular o índice acima como também será o parâmetro de cálculo do índice da taxa de câmbio necessária para atingir um certo valor do ICEI, explicado a partir da etapa 2:

 

  1. Aplicação da mesma regra para estimar o índice da Taxa de Câmbio Nominal real/dólar necessária para que se atinja um determinado valor do ICEI

 

Queremos que a taxa real de câmbio seja igual ao ICEI para que o país mantenha a mesma competitividade que possuía em 2005. Portanto, substituindo REER por ICEI na fórmula, temos:

 

 

As moedas e os preços estão todas mensuradas em índice, pois do contrário os valores das séries de taxas de câmbio bilaterais dos diversos países seriam muito díspares e não conseguiríamos calcular uma taxa de câmbio efetiva. Em outras palavras, a média ponderada dos valores dessas moedas geraria um resultado que não possui significado econômico, por isso devemos calcular uma média ponderada dos índices da evolução de cada uma dessas moedas.

 

Assim, o resultado desta equação também é um índice, referente à taxa nominal de câmbio que deveria prevalecer para alcançar o valor da taxa real desejada, que por sua vez deve ser igual ao ICEI.

 

  1. Estimativa do valor da taxa de câmbio correspondente ao índice encontrado para a mesma taxa de câmbio

 

Como queremos o valor da taxa nominal de câmbio, e a base 100 do índice das taxas nominais de câmbio (utilizadas na fórmula acima) é 2005, então dividimos o índice da taxa nominal de câmbio resultante na fórmula acima (R$US$*)  por 100, e multiplicamos o resultado pela taxa média nominal de câmbio de 2005. Assim encontramos o valor da taxa nominal de câmbio que resultaria na taxa de câmbio real de equilíbrio industrial também na data desejada.

 

  1. Estimativa do valor da taxa de câmbio correspondente ao índice encontrado para a mesma taxa de câmbio, a valores de uma certa data

 

A comparação se torna mais interessante quando convertemos essas taxas de câmbio, calculadas para cada período no tempo, a preços atuais. Para isso, basta multiplicar cada taxa de câmbio calculada por um fator de atualização. Esse fator corresponde ao resultado da divisão entre duas razões: a razão entre o IPC brasileiro e o IPC americano na data de hoje e a razão entre o IPC brasileiro e o IPC americano na data para a qual foi estimada a taxa de câmbio.

Como as taxas de câmbio estimadas são bilaterais (R$/US$), basta atualizar os valores pela razão entre a inflação brasileira e americana, não sendo preciso também considerar a inflação em outros países.

O Custo Unitário do Trabalho dos países selecionados e a ponderação utilizada para calcular o ICEI, bem como o índice e o valor da Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial podem ser consultados na planilha em anexo.

Referências
 
Bresser-Pereira, L. C., 2018. Neutralizing the Dutch Disease. Discussion Paper EESP/FGV 476.
 
Marconi, N., 2012. The industrial equilibrium exchange rate in Brazil: an estimation. Brazilian Journal of Political Economy, vol. 32, nº 4 (129), pp. 656-669.
 
 
AnexosSize
Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial.xls189 KB

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